Rede de pesquisa apresenta dados preliminares sobre trabalho decente na América Latina

Reunião da RedLat em São Paulo

Pesquisadores de sete países debateram dados preliminares sobre trabalho decente na América Latina

A crise econômica ainda reverbera sobre o emprego e as condições de trabalho oferecidas na América Latina. É o que apontam dados preliminares de pesquisa sobre trabalho decente na região, apresentados em reunião da Rede Latino-Americana de Pesquisa em Empresas Multinacionais (RedLat). O encontro acontece nesta quinta e sexta, 8 e 9, em São Paulo (SP).

A pesquisa foi iniciada em julho de 2015 e é coordenada pelo Instituto Observatório Social. O projeto conta com a participação de pesquisadores de sete países: Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Peru, México e Uruguai. Entre os temas que compõem a análise sobre trabalho decente na região estão indicadores socioeconômicos, oportunidades de emprego, remuneração, proteção social, liberdade sindical e negociação coletiva.

“É importante não apenas essa análise mais aprofundada sobre um tema tão importante para a ação sindical, mas também garantir formas para que esses dados cheguem até os sindicatos”, afirmou o diretor para América Latina da DGB BW, apoiadora da pesquisa, Niklaas Hofmann.

Realidades similares

De modo geral, foram identificados impactos da crise econômica em todos os países pesquisados, com efeitos diretos sobre salários e direitos dos trabalhadores.

No Brasil, a análise destacou práticas antissindicais, como suspensão de pagamento de salários de dirigentes, proibição de organização no local de trabalho e assédio moral ao trabalhador sindicalizado. No último ano, a remuneração média no país reduziu 2%. A taxa de sindicalização se manteve estável (com média entre 17% e 19% das pessoas ocupadas entre 1992 e 2012) e aumentou o percentual de pessoas ocupadas com garantias previdenciárias (passou de 3,4% em 2005 para 70,6% em 2011).

Na Argentina, a pesquisa identificou grande número de assalariados não registrados, que recebem menos que um salário mínimo por mês. Também foi identificada grande informalidade entre os jovens – 57% entre os assalariados. Além disso, há número significativo de pessoas que trabalham mais de 49 horas por semana (superior à média de 35 horas de jornada semanal) e de trabalhadores sem previdência social (um em cada três).

No Uruguai, a pesquisa mostrou que os níveis de precariedade das condições de trabalho passou de 40% para 23% em forma geral, e 20% entre os registrados, com foco na construção civil. Segundo a análise, setor de serviços é o que mais cresceu nos últimos anos no país, ultrapassando o da construção, que também cresceu muito e de forma preocupante por incluir trabalhadores com qualificação mais baixa.

A análise identificou que no Chile, 20,4% da população está em pobreza multidimensional (que inclui baixos índices de educação, trabalho, saúde e habitação). Hoje, a taxa de desemprego no país está em 6,5% e tem crescido nos últimos anos. Essa taxa é maior entre as mulheres, com cerca de 6,9% frente a 6% entre os homens. As subcontratações (contratação de uma empresa por outra) também aumentou e chega a 58% nas grandes empresas.

A pesquisa mostra que na Colômbia, 48% dos trabalhadores e trabalhadoras recebem menos que 1 salário mínimo por mês e 64% carecem de algum dos componentes de seguridade social (saúde, pensão, fundo de garantia, seguro desemprego). Também aponta que 42,6% dos trabalhadores são autônomos, sem registro ou benefícios. Agricultura, infraestruturas, inovação e tecnologia, mineração e construção civil impulsionaram a economia na Colômbia nos últimos anos, mas não a geração de empregos. A qualidade de emprego também piorou: 42,6% dos trabalhadores são autônomos, sem registro ou benefícios.

No Peru a pesquisa apontou uma redução nos índices de pobreza, que passou de 55% em 2005 para 22,7% em 2014. As oportunidades de emprego se mantiveram e as taxas de atividade, baixaram de 74% para 72%. A população assalariada tem crescido no país, de 39% em 2005 passou para 49% em 2014.

Sobre a RedLat

A Rede Latino-Americana de Pesquisas em Empresas Multinacionais (RedLat) é uma iniciativa criada em outubro de 2005 que reúne sindicatos e instituições de pesquisa sobre o mundo do trabalho de sete países da América Latina. O principal objetivo é realizar pesquisas comparativas em multinacionais que atuam no continente. Entre os temas de estudo estão direitos dos trabalhadores, meio ambiente e responsabilidade social, dentre outros assuntos de interesse do meio sindical e dos consumidores que se relacionam com as empresas.

As instituições que compõe a RedLat são: CILAS (Centro de Investigaciones Laboral y Asesoria Sindical) no México, ENS (Escuela Nacional Sindical) e CUT (Central Unitaria de Trabajadores) na Colômbia, PLADES (Programa Latinoamericano de Desarrollo), no Peru, ICUDU (Instituto Cuesta Duarte) e PIT-CNT do Uruguai, CENDA (Centro de Estudios Nacionales de Desarrollo Alternativo) e CUT (Central Unitaria de Trabajadores) no Chile, LASOS (Laboratorio Social Sindical de Argentina) e CTA (Central de Trabajadores Argentinos) na Argentina, IOS (Instituto Observatório Social) e CUT (Central Única dos Trabalhadores) no Brasil, e a CSA (Confederación Sindical de las Américas).

Atualmente, o Instituto Observatório Social é responsável pela Secretaria Operativa da Rede. A RedLat conta com o apoio fundamental da DGB Bildungswerk (DGBBW), entidade de formação e o cooperação ligada à DGB, central sindical alemã.