Estudo realizado por Instituto Observatório Social analisa os impactos e os perigos da ascensão chinesa na economia brasileira

A ascensão chinesa na economia mundial pode afetar grandemente os planos de desenvolvimento do Brasil. O “modelo” econômico chinês, caracterizado pela abundância de mão-de-obra, baixos salários, precarização das condições de trabalho e barreiras à sindicalização, tem colocado trabalhadores latinoamericanos na mira da globalização chinesa. Essas são as principais preocupações levantadas pela apresentação de dados preliminares de pesquisa realizada pelo Instituto Observatório Social, apresentada a confederações da CUT no último dia 4.

Segundo a pesquisa, a inserção chinesa na economia global observada nos últimos anos, somada à crise econômica mundial, tem gerado transformações na estrutura econômica global. Setores produtivos de vários países têm sentido forte concorrência, principalmente devido ao baixo custo dos produtos oferecidos pelos chineses. Como consequência, o cenário das relações comerciais com a China tem mudado significativamente, e afetado, direta e indiretamente, os trabalhadores.

No Brasil, por exemplo, nos últimos oito anos, as importações de produtos produzidos na China aumentaram em 800%. As exportações, entretanto, aumentaram apenas 200%, e têm se concentrado cada vez mais em produtos primários, como soja e minérios de ferro. Para o trabalhador, essa mudança se traduz em menos empregos, uma vez que os produtos mais exportados são os menos processados, os que exigem menos trabalhadores nas fases de preparação para o mercado externo.

Para o responsável pela pesquisa, Alexandre Barbosa, essas mudanças exigem a redefinição de estratégias de crescimento e desenvolvimento social e econômico, tanto no Brasil quanto nos demais países cuja economia se baseia na exportação. Segundo ele, a participação do movimento sindical nesse processo é fundamental para a defesa e garantia dos direitos trabalhistas em todos os setores afetados. “A ascendência chinesa na economia global afeta os níveis de emprego e reflete no padrão de relações de trabalho em alguns setores produtivos do Brasil. O movimento sindical precisa conhecer o que está acontecendo e se preparar para essas mudanças”, afirma.

Pesquisa e desdobramentos

Os dados apresentados pelo IOS na última semana fazem parte de um relatório preliminar da pesquisa Made in China: Oportunidades e ameaças colocadas pela ascensão global da China para os trabalhadores latinoamericanos. A pesquisa faz parte de um projeto de monitoramento dos investimentos chineses na América Latina, realizado através da Rede Latinoamericana de Pesquisa em Empresas Multinacionais (RedLat). Além do Brasil, estão sendo monitorados investimentos chineses na Colômbia, Chile, Peru, Uruguai, México, Argentina e Equador.

Iniciada em janeiro, a pesquisa nos oito países será finalizada em dezembro. A primeira fase, encerrada em outubro, consistiu no levantamento de dados sobre a atual situação da atuação chinesa em cada país. Em novembro, começaram os aprofundamentos da pesquisa, que tem como foco os setores de energia, metalurgia, minério e intra-estrutura. Até o final do ano, serão realizados mapeamentos dos investimentos chineses nesses setores, em todos os oito países.

Em fevereiro de 2010, está previsto um seminário internacional no Rio de Janeiro, onde serão apresentadas as pesquisas realizadas. A partir de dados apresentados, o evento debaterá os impactos do comércio e dos capitais chineses para o mundo do trabalho nos diferentes países, e refletirá sobre o desafio que a presença chinesa representa para as economias e os trabalhadores latinoamericanos.

Cada país pesquisado produzirá uma cartilha, que servirá de base para a atuação sindical na América Latina. Este material irá apoiar os sindicatos com a elaboração de estratégias comuns, para pressionar os governos nacionais para implementar políticas que ajudem a contrabalancear os impactos negativos nos mercados de trabalho nacionais.

Também está em fase de criação o Grupo de Trabalho sobre China, envolvendo os sindicatos da região, que irá formular pesquisas, ferramentas para os trabalhadores e ações sindicais relacionadas ao tema. No Brasil, está prevista também a realização de oficinas sindicais com os setores pesquisados.